Tradução do Resumo: Esta monografia questiona se alguns princípios centrais da teoria tradicional da guerra justa poderiam não estar corretos. Depois antecipa um raciocínio alternativo fundado nas mesmas considerações de justiça que regem a autodefesa em nível individual. As implicações desse raciocínio são heterodoxas. Isso implica em que, com poucas exceções, combatentes que lutam por uma causa injusta possam agir de maneira não permissível quando atacam combatentes inimigos, e que combatentes que lutam numa guerra justa possam, em determinadas circunstâncias, legitimamente visar não combatentes que tenham significativo grau de responsabilidade moral por algum erro, quando a prevenção ou retificação desse erro constitui causa justa de guerra. Autor: Jeff McMahan.
PORTAL DA ANARQUIA
sábado, 11 de agosto de 2007
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Anarquia Eficaz - Peter T. Leeson
terça-feira, 7 de agosto de 2007
CENTENÁRIO DE FUNDAÇÃO ! - CIEN AÑOS DE LUCHAS !
...É dentro desta realidade social que, em 19 de julho de 1907, militantes anarquistas da primeira geração do sindicalismo santista, como Eládio Cezar Antunha, Luiz La Scala, Serafim Soler, Severino Antunha Alher, João Antonio de Faria, Thiago Marques, Albano de Oliveira, Antonio Moral, Manoel Fernandes e tantos outros, resolvem fundar a Federação Operária Local de Santos, com o intuito de organizar os trabalhadores da região, para que juntos pudessem se defender contra todas as formas de injustiças e assim rumar em direção de sua completa emancipação social...
LEIA A ÍNTEGRA CLICANDO NO LINK ACIMA: O PORTAL DA ANARQUIA: LUTA SECULAR
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
LUTA SECULAR
MEMÓRIA DOS TRABALHADORES DE SANTOS
As invasões da Federação Operária Local - Relembrando crimes da Polícia Santista
Por Marcolino Jeremias
Hoje em dia quem anda apressadamente pelo centro de Santos e passa pela rua Amador Bueno, nem imagina que aquele grande sobrado de nº 25, possui um valor histórico inestimável para todos os trabalhadores da Baixada Santista. Isso acontece principalmente porque a educação oficial concedida pelo Estado não ensina para seus alunos a história da nossa própria região, principalmente em relação à origem das organizações dos trabalhadores santistas e a enorme luta que foi necessária travar para conquistar direitos humanos e trabalhistas básicos. Uma história com episódios escritos à base de muito sangue e sofrimento, diga-se de passagem.
E não se deve pensar que isso acontece por acaso, toda essa falta de referência histórica faz parte de um elaborado processo educacional, planejado intencionalmente com o objetivo de produzir seres humanos profundamente alienados e bestificados, sem qualquer capacidade crítica ou de raciocínio. Afinal de contas, aos nossos governantes e políticos de plantão não interessa que futuros trabalhadores que servirão como burros de cargas tenham o menor sinal de inteligência. Para relembrarmos esses acontecimentos distantes, é preciso frisar que as condições de trabalho na época eram as piores possíveis e refletiam um profundo desrespeito pela figura humana dos trabalhadores, que por sua vez, não possuíam horário de trabalho limitado e chegavam a trabalhar entre 10 e 14 horas (ou até mais!) por dia.
Os trabalhadores de Santos e do Brasil não tinham descanso semanal ou férias, seguro ou assistência nos acidentes de trabalho (para o governo, os trabalhadores acidentados no serviço tinham apenas uma alternativa: pedir esmolas!), aposentadoria por incapacidade física ou velhice, dia certo de pagamento, limitação mínimo de salário, garantia por tempo de serviço, escolas para usufruir ou encaminhar seus filhos, higiene de nenhuma espécie nos bairros operários e nos locais de trabalho e, ainda, como se não bastasse, as crianças trabalhadoras estavam sujeitas a castigos corporais.
É dentro desta realidade social que, em 19 de julho de 1907, militantes anarquistas da primeira geração do sindicalismo santista, como Eládio Cezar Antunha, Luiz La Scala, Serafim Soler, Severino Antunha Alher, João Antonio de Faria, Thiago Marques, Albano de Oliveira, Antonio Moral, Manoel Fernandes e tantos outros, resolvem fundar a Federação Operária Local de Santos, com o intuito de organizar os trabalhadores da região, para que juntos pudessem se defender contra todas as formas de injustiças e assim rumar em direção de sua completa emancipação social.
Inicialmente, o número de sócios era superior a 400 trabalhadores e na Federação estavam filiadas as seguintes organizações operárias: Sindicato dos Carroceiros e Chauffeus, Sindicato dos Pedreiros e Serventes, Sindicato dos Pintores, Sindicato dos Carpinteiros e Artes Correlativas, Sindicato dos Metalúrgicos, Sindicato dos Operários em Pedra e Granito, Sindicato dos Trabalhadores das Docas, Sindicato dos Padeiros, Sindicato dos Estivadores, Sindicato dos Ferreiros e Serralheiros, Sindicato dos Empregados das Estradas de Ferro, Sindicato dos Canteiros e Classes Anexas, Sindicato dos Trabalhadores do Moinho Santista, Sindicato dos Ternos de Ensaque de Café e Sindicato dos Ternos de Embarque de Café. Boa parte destes sindicatos funcionava na própria sede da Federação.
Um relatório escrito por Agostinho Prado, então secretário geral da própria Federação Operária de Santos (publicado no jornal "A Voz do Trabalhador", Rio de Janeiro, em 01 de abril de 1914, página 3), registra que em 17 de junho de 1909, durante uma assembléia da classe dos Padeiros, a sede da Federação foi arbitrariamente assaltada pela polícia santista que carregou todos os seus móveis para o depósito municipal, destruiu a sua biblioteca e prendeu na ocasião 165 trabalhadores que tinham cometido um "terrível crime" aos olhos de todas as autoridades governamentais: desejar uma vida melhor com condições mais justas de trabalho!
Não obstante as dificuldades, os valorosos combatentes trabalhadores santistas não desanimaram! Começaram a reorganizar a Federação a partir do zero, até que no ano seguinte conseguiram finalmente reabrir sua sede.
Segundo documentos da época, a Federação Operária Local de Santos, no apogeu de sua movimentação chegou a possuir o extraordinário quadro de 22.500 trabalhadores filiados, tornando-se a organização operária brasileira com o maior número de associados durante esse período.
Quem nos conta como funcionava a Federação Operária Local de Santos, é Severino Gonçalves Antunha, um antigo freqüentador dos meios operários, que em junho de 1968, escreveu um valioso texto (publicado originalmente no livro "Nacionalismo e Cultura Social 1913-1922", de Edgar Rodrigues lançado pela Editora Laemmert - Rio de Janeiro, em 1972, páginas 359/362), em forma de memórias, do qual destacamos:
- O período áureo foi o da Federação Operária. Havia Escola Noturna, onde se aprendia um pouco de tudo: alfabetização, desenho, teatro, sociologia e política, numa mesma vontade de saber sem precedentes na cidade. Havia um salão de leitura com jornais como A Lanterna, A Revista Blanca, e muitos outros de São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Barcelona, etc... Obras como El Hombre y La Tierra de Reclus, editada pela Escola Moderna de Ferrer, A Grande Revolução de Kropotkin e obras de Tolstoi, Bakunin, Máximo Gorki, Sebastião Faure e outros escritores revolucionários, assim como obras sobre conhecimentos gerais, didáticas de todos os matrizes e literatura em geral. Era, enfim, uma corrida sem precedentes, em busca de cultura.
Era belo, grandioso mesmo, ver homens de mãos calejadas, segurando desajeitadamente o lápis ou o tira-linhas. Muitos já maduros, com cabelos grisalhos. Outros mais moços, com poses oratórias, viviam discutindo, discursando e ensinando o que sabiam. Publicaram-se alguns jornais de vida efêmera.
Havia o projeto Casa do Povo, com função de ser uma verdadeira casa de cultura, com salas de aula, auditórios, etc... Detalhe interessante: não havia contribuição fixa, tudo era feito de acordo com as possibilidades de cada um e havia preocupação de não sacrificar ninguém. Não havia presidente ou chefes ostensivos, apenas companheiros que se revezavam nas tarefas mais variadas.
Alguma coisa se fez, mas muitos mais se teria feito, se os governantes, cônscios de que a questão social era uma questão de polícia, não dessem carta branca a essa mesma polícia, para sufocar brutalmente tão promissor movimento.
Mas a reação estava atenta, nada deixando frutificar, para chegarmos a isso que hoje vemos...
Durante a sua existência, a Federação serviu como sede para os trabalhadores de Santos se reunirem e se organizarem em classe, encaminhou campanhas de todos os tipos na defesa de seus associados, publicou jornais sindicalistas, ajudou a alfabetizar inúmeros filhos de operários e transformou vários trabalhadores analfabetos em seres humanos extremamente cultos.
As autoridades de Santos não podiam suportar tamanha ousadia! Tanto que no dia 16 de abril de 1914 os militantes da Federação distribuíram largamente pelas classes operárias boletins que convidavam os carroceiros e chauffeurs a se reunirem na sede da mesma, para tratarem de interesses de classe.
A polícia de posse de um desses boletins e por ordem do então delegado policial, Bias Bueno, se armou para invadir a sede da Federação, onde estava acontecendo a citada assembléia dos trabalhadores. Nesse momento, dentro da Federação, quem ocupava a tribuna, era o combativo militante anarquista, Antonio Vieytes. Inteligente, possuidor de grande eloqüência e que empregava seus argumentos no sentido de convencer os seus companheiros, que eram em grande número e de que as classes proletárias precisavam levantar-se para defender seus direitos. Foi aproximadamente nesse momento do discurso que a polícia invadiu o local da assembléia. O reboliço foi geral, Antonio Vieytes e os trabalhadores mais decididos não perderam a calma. Quando os policiais perguntaram para que finalidade realizava-se aquela reunião, o companheiro Vieytes respondeu firmemente que viera ao Brasil para cumprir o seu dever de defensor incondicional dos operários escravizados pelo capital e que ocupava a tribuna no gozo de um direito.
A polícia santista prendeu os militantes anarquistas Antonio Vieytes e Manuel Gonzalez, além de outros trabalhadores que não tiveram seus nomes registrados na imprensa. A brutalidade policial foi como de costume, o patrimônio dos trabalhadores foi novamente roubado e a sede da Federação foi fechada, desta vez, definitivamente.
Antonio Vieytes e Manuel Gonzalez foram expulsos do território brasileiro e a polícia local, a mando do delegado Bias Bueno e das autoridades governamentais, reforçou a violenta campanha contra os trabalhadores de Santos que estava sendo empregada na época.
No dia 18 de abril de 1914, o jornal “A Tribuna” de Santos, estampava com enorme satisfação a notícia da invasão policial, do fechamento da federação operária e da expulsão dos dois trabalhadores, “agitadores anarquistas”, como faziam questão de dizer.
Toda essa brutalidade não foi capaz de impedir que os trabalhadores de orientação anarquista, fundassem em Santos novos Sindicatos, Ligas Anti-Clericais, Centros de Estudos Sociais e outras organizações de operários.
Por Marcolino Jeremias
SAIBA MAIS...
RECLUS
Élie (Elias) (Sainte-Foy-la-Grande, Gironde, 1827 Bruxelles, 1904), escritor francês: les Primitifs, études d’ethnologie comparée (1885). Membro da Comuna, foi banido em 1871.
Élisée (Eliseu) (Sainte-Foy-la-Grande, 1830 Thourout, Belgique, 1905), geoórafo francês, irmão de Élie Reclus. Membro da Internacional Socialista, ligado a Bakunine, foi banido por sua participação na Comuna. Géographie universelle (1875-1894); l’Homme et la Terre (obra póstuma, 1905-1908).
KROPOTKIN
Kropotkine (Piotr Alexeïevitch, príncipe) (Moscou, 1842 Dimitrov, 1921), oficial, geógrafo e revolucionário russo. Filiado à Internacional (1872), deixou a mesma por recusar o marxismo e se tornou um dos principais teóricos do anarquismo: la Grande Révolution 1789-1793 (1893), l’Anarchie, sa philosophie, son idéal (1896). Vivia parte de sua via no exílio (França, Suíça, Inglaterra) e só voltou à Rússia em 1917. © Hachette Livre, 1997.
PROUDHON
Proudhon (Pierre Joseph) (Besançon, 1809 Paris, 1865), teórico socialista francês. Eleito deputado na Assembléia Constituinte de 1848, fundou no ano seguinte o Banco do Povo visando organizar a gratuidade do crédito: foi um fracasso. Condenado por delito de imprensa (havia criado três journais, tous proibidos), fugiu para a Bélgica (1858); quando voltou para a França (1862), abandonou a disputa política. Dele é famosa principalmente a fórmula: «A propriedade é um roubo», mas ele também proclamava: «Queremos a propriedade para todos...» Seu pensamento influi profundamente o meio operário francês. Principais obras: Qu’est-ce que la propriété? (1840), Système des contradictions économiques ou la Philosophie de la misère (1846, critiqué par Marx dans Misère de la philosophie), De la justice dans la révolution et dans l’Église (1858), Du principe fédératif et de la nécessité de reconstituer le parti de la révolution (1863). © Hachette Livre, 1997
ELISEU RECLUS
Elisée Reclus, geógrafo & anarquista
Há cerca de uma década, o nome, a vida e a obra de Eliseu Reclus [Elisée Reclus] (1830 - 1905) têm sido progressivamente descobertos pelos geógrafos de todos os países (na França: Béatrice Giblinet, Yves Lacoste; na Inglaterra: Gary S. Dunbar, Kenneth R. Olwig, David R. Stoddart; nos Estados Unidos: Richard Peet; na U.R.S.S.: V.A. Anuchin; etc).
Na França, os geógrafos acabaram de adotar o nome de Reclus para o projeto de redação da IV Geografia Universal, em homenagem àquele que redigiu a II, “pioneiro por tanto tempo desprezado (...), mas também homem corajoso e independente” (R. Brunet).
Um símbolo...
Esse redescobrimento faz parte do novo avanço das idéias libertárias. Kropotkin, que evidentemente era ligado a Reclus, seu companheiro de anarquia e de geografia, também foi alvo de trabalhos recentes, em particular nos Estados Unidos (Bob Galois, Myrna M. Breitbart, etc). Numa época de intensa agitação social e cultural, uma parte do mundo das idéias procura superar o caráter estéril e simplificador de teorias que se pretendem progressistas como o marxismo, mas que perderam sua aura por suas aplicações trágicas e totalitárias, e constata (não sem surpresa) que em questões fundamentais, como as relações de homem com seu ambiente e a sociedade dos homens, levantaram proposições profundas numa perspectiva constantemente radical: anarquista. Mas isso, não sem causar graves confusões: observamos, por exemplo, que Kropotkin teria sido defensor do Estado mínimo*, o que é o cúmulo para um anarquista!
É sempre tentador utilizar idéias expressas no passado para reforçar aquelas que estão atualmente em busca de apoio e uni-las a lutas que nem são assim tão novas. Ao contrário, é preciso analisá-las sem dó nem piedade.
Podemos então confrontar os pontos de vista de Reclus com as mais recentes contribuições do conhecimento.
Reclus e o determinismo
Reclus consegue facilmente a unanimidade para a amplitude de sua obra: quantidade considerável de escritos, de informações levantadas para a época, de trabalho realizado em condições materiais muitas vezes delicadas. Sobre a qualidade, além de seu estilo literário igualmente reconhecido, um núcleo duro se destaca que está longe de ter enrugado. Reclus inicialmente levou um certo número de ferramentas para a Geografia. Segundo Anuchin foi ele quem criou a expressão “ambiente geográfico” e, segundo Dunbar, “geografia social”. Mas nem por isso Reclus procurou fazer um corte de sua disciplina. Tratava-se de introduzir claramente no domínio da “geograficidade”, como destaca com muita propriedade Y. Lacoste, o conjunto das questões (econômicas, políticas, ecológicas, etc) que ficavam até então mais ou menos separadas, e isso numa perspectiva de inter-relações que sublinhavam a problemática natureza/sociedade.
O que nos parece evidente hoje em dia (como a influência das políticas estatais sobre o arranjo do território, por exemplo) estava longe de ser ainda nessa época. E Reclus, de evocar sem rodeios as colonizações, os imperialismos, as guerras.
De uma deontologia científica exemplar, ele rejeitava todos os preconceitos. Kropotkin lembra “seu profundo respeito pelas nacionalidades, clãs ou tribos, civilizados ou não. Não somente sua obra está livre de toda vaidade nacional absurda ou de preconceito nacional ou racial, como ele conseguiu, além disso, mostrar (...) aquilo que todos os homens têm em comum, o que os une e não aquilo que os divide”. A problemática natureza/sociedade continua sempre igualmente discutida.
Em quê o homem é influenciado ou modificado pelo ambiente físico?
Qual é a participação dos comportamentos adquiridos (pela educação, o entorno [a vizinhança (neighbourhood em inglês, conceito bastante na moda atualmente nos EUA)], etc) e dos comportamentos inatos?
Sobre essas questões, os debates estão longe de terminar e, como sublinhou o sociólogo Georges Gurvitch em toda sua obra, eles colocam de fato em última instância o problema da liberdade. Em Geografia, e para resumir, eles gravitam em volta do “determinismo”. Este pode chegar a conclusões tão parciais quanto falsas sobre o vínculo entre a distribuição da população e a freqüência dos pontos de água ou entre o estado das civilizações e a natureza de seu clima (os negros são preguiçosos para o trabalho, pois faz muito calor em seus países, isso é bem conhecido).
Sobre o determinismo, Reclus tem uma posição muito firme: ele se opôs a princípio àqueles que privilegiam um único fator na explicação de um fato: “é por um esforço de abstração pura que as pessoas tentam apresentar esse traço particular como se ele existisse distintamente e que se busca isolá-lo de todos os outros para estudar a influência do mesmo (...). O meio é sempre infinitamente complexo” (O Homem e a Terra, TA, p. 108).
Para Reclus, o homem é uma parte desse meio e de sua dimensão física, a Natureza (“o homem é a natureza tomando consciência de si mesma”); como Kropotkin, ele sublinha isso constantemente em seus escritos, e nisso bem na linha do naturalismo ambiente da época.
Sim, o homem é suficientemente poderoso para dominar a natureza. Mas ele não pode esquecer as leis da mesma, a não ser em detrimento delas. Em sua conclusão de O Homem e a Terra, Reclus ironiza assim a ideologia do super-homem, esses “aristocratas do pensamento” ou da riqueza.
Isso não surpreende: os anarquistas, ecologistas pioneiros, reconhecem as leis naturais como as únicas contra as quais o homem nada pode, exceto a morte, e os colocam aquém das leis que os homens podem se dar livremente a eles mesmos (Bakounin, o eterno revoltado, que Reclus encontrou em plena Iª Internacional, declara: nenhuma rebelião contra a Natureza é possível).
Isso significa, portanto que o homem, indivíduo e sociedade, permanece submetido aos elementos físicos?
Não, pois para Reclus a variação desses elementos no espaço e no tempo (terminologia de “meio-espaço” [ambiente-espaço] e de “meio-tempo” [ambiente-tempo]) e a modificação constante de nossas percepções (Reclus evoca o “valor relativo de cada coisa”) impedem qualquer hierarquia metódica das causalidades.
E emprega o termo “dinâmico" para definir o modo das inter-relações, noção que será retomada por seus sucessores como seu sobrinho Paul ou o anarquista japonês lshikawa Sanshiro e que lembra a de “cinética” empregada por Kropotkin.
Em toda parte, o homem pode se adaptar às condições naturais, portanto pode modificá-las, se tiver os meios para tanto. Reclus mostra isso com a ajuda de múltiplos exemplos e de mapas, sem se contentar com diatribes contra o Estado ou a burguesia e sem se esconder atrás dos conceitos ad-hoc [forjados, propositais] como o fazem os marxistas com o “modo de produção” ou o “materialismo histórico”. Ele procura estabelecer todas as conexões e demonstrar os processos para captar a complexidade do real. O que a posição de Reclus subtende é, não podemos ignorar, essa opção lúcida, inabalável, cruel e visceral: a liberdade, esse sentimento no qual tudo é, tudo continua, tudo deve ser possível.
Com razão, G.S. Dunbar lembra que Reclus declarava: “sou geógrafo, mas acima de tudo sou anarquista” e comenta que “assim como sua geografia era necessária ao seu anarquismo, também seu anarquismo enriquecia sua geografia; não podemos entender Reclus se olharmos um sem o outro”. A orientação libertária de Reclus, longe de se prestar para nossas manipulações ideológico-científicas, é exatamente a garantia da independência, do julgamento crítico e da honestidade indispensável a toda busca sincera. E ela vai muito mais longe que o “possibilismo” clássico desenvolvido por certos geógrafos contra o determinismo corrente, pois ela não ignora a existência de leis geográficas.
As “três leis” de Reclus:
A luta de classes, a busca de equilíbrio e a decisão soberana do indivíduo, tais são as três ordens de fatos que o estudo da geografia social nos revela e que, no caos das coisas, se mostram bastante constantes para que possamos lhes dar o nome de leis, escreveu Reclus no prefácio de seu O Homem e a Terra [L'Homme et la Terre].
Essas leis são bem entendidas como princípios gerais que não se confundem com simples mecanismos implacáveis; por sua prudência estilística, Reclus trata de sublinhar isso. Essas três leis constituem uma imensa contribuição da parte de Reclus e a geografia está longe de ter explorado todas as suas incidências. Tomadas uma a uma, elas traduzem os avanços de então nas ciências sociais da época e as próprias preocupações de Reclus.
A esse respeito, convém retificar a interpretação de Y. Lacoste que atribui uma dimensão “marxiana” a Reclus para sua referência à “luta de classes”. Não podemos esquecer que foi Proudhon quem inventou e teorizou o conceito de “luta de classes” e se o mesmo foi retomado e aprofundado pelos marxistas, de resto sob aspectos às vezes bem confusos (lembrar as diferenças que separam Lênin de Bernstein ou Jaurès de Guesde a esse respeito), sobre suas implicações revolucionárias, Proudhon e Reclus para apenas citar aqueles anarquistas que se opuseram incontestavelmente a Marx e aos marxistas. Ou então, nesse caso, tudo é “marxiano”!
A “busca do equilíbrio” consagra as descobertas em biologia (Darwin) e em sociologia (Le Play antes de Durkheim), apoiadas pelo mutualismo de Kropotkin. A “decisão soberana do indivíduo” tem um tom inegável e magnificamente anarquista, mas não deixa de ser menos científica. Ela fica evidente na história (o destino e as individualidades que pesam sobre esta) apesar dos protestos marxistas (cf. Plekhanov taxando Reclus de individualista idealista) e apesar da própria realidade marxista (o poder de Marx na Iª Internacional, o poder de Lênin, de Stalin, de Mao, de Pol Pot, etc); mas foi preciso esperar as recentes descobertas contemporâneas para aí confirmar a validade coerente do vínculo vital pela colocação em evidência da importância do aleatório, do espontâneo e do temporal na natureza: teoria das bifurcações e das catástrofes (René Thom) e teoria das estruturas dissipativas do físico Ilya Prigogin que insiste a respeito da formação da ordem a partir da desordem ou da ruptura da ordem, por exemplo, o que não deixa de evocar de novo as intuições de Bakounin: a alegria da destruição é ao mesmo tempo uma alegria construtiva, ou ainda: quanto mais a visualização do futuro está conforme ao desenvolvimento necessário do mundo social atual, mais os efeitos da ação destrutiva são saudáveis e úteis.
Essas três leis e sua “pulsação libertária” colocam Reclus contra todos os determinismos sistemáticos e generalizados que atribuiriam no final das contas toda causa e a origem de cada coisa ou ser a um princípio superior único, concepção tipicamente religiosa, metafísica, e autoritária (quer seja Deus ou o Capital...), ainda não demonstrada. Elas revelam essa tensão de sempre entre o homem e a natureza, quer dizer da liberdade, a única opção que distingue completamente o homem do animal (e que culmina nessa escolha que torna impotentes todas as autoridades: o suicídio).
Essa tensão em nenhum caso é resolvida por uma síntese artificial. Ela não pode e não deve se fundir em um princípio único novo. Isso é tudo o que separa os dialéticos hegelianos, marxistas ou não, com sua tese/antítese/síntese, dos libertários. Proudhon, ao desenvolver sua dialética serial, sublinhou perfeitamente a importância das contradições no movimento histórico (reação/revolução, autoridade/liberdade) e do “equilíbrio dinâmico entre forças eternamente opostas".
A dinâmica reclusiana de “progressão e regressão” se situa dentro dessa perspectiva. Pessoalmente, não penso que a crença de Reclus no pregresso tenha sido isenta de otimismo teleológico, e essa é a principal crítica de fundo que eu faria tanto a Reclus como a Kropotkin (e fora os aspectos necessariamente envelhecidos de seus trabalhos).
Essa crença, perfeitamente conforme ao clima científico da época, se traduziu por um evolucionismo um pouco muito restrito (que a ameaça atômica relativiza completamente) e confiante, principalmente em Kropotkin, menos em Reclus como podemos constatar em sua conclusão de O Homem e a Terra: “Esse é o lado muito doloroso de nossa semicivilização tão elogiada, semicivilização já que dela nem todos desfrutam”.
É preciso afirmar que o otimismo que caracteriza os dois geógrafos anarquistas não tem nada a ver com a generosidade “ingênua” de Rousseau, contrariamente ao que afirma infelizmente B. Giblin a propósito de Reclus (e em seguida muitos universitários que se exprimem sobre o anarquismo, cf. Andrew Hacker na Enciclopédia das Ciências Sociais, por exemplo.): para os anarquistas, o homem não nasce nem bom nem mau; ele nasce com potencialidades que o ambiente (social e físico) desenvolve em tal ou qual sentido.
Tratava-se mais de uma confiança no homem e particularmente em sua ação revolucionária, no alvorecer das revoluções russas e chinesas, confiança que mesmo o pessimista B. Russel compartilhou por algum tempo (The road of freedom / O caminho da liberdade).
A redescoberta de Reclus não deve ser uma moda, que é passageira por essência.
Ela só pode ser inseparável de um movimento profundo, não somente intelectual, mas político, cultural, econômico e social. O próprio Reclus sublinha isso a propósito do urbanismo, que se tornou hoje em dia um dos pilares da reflexão geográfica e da ação sócio-política: “Mesmo que todos os edis [magistrados que fiscalizavam as obras] de uma cidade fossem sem exceção homens de gosto perfeito, que cada restauração ou reconstrução de edifício fosse feita de maneira irretocável, nenhuma das nossas cidades deixaria de oferecer menos o penoso e fatal contraste de luxo e miséria, conseqüência necessária da desigualdade e da hostilidade que separam em dois o corpo social”.
Esse é o bê-á-bá do anarquismo, antieleitoreiro! E, como vimos, a referência comum e constante a um certo número de noções (dinâmica, antagonismos, individualidades, etc) fazem do anarquismo um corpo teórico consolidado (mas não fechado), apoiado cientificamente; mas que é apenas isso.
A vida de Reclus, onde seu pensamento foi inseparável da ação militante, é a prova disso.
E alguns geógrafos tratam de atribuir o esquecimento de Reclus pela escola geográfica francesa ao distanciamento causado por seu exílio. Mas, podemos esquecer que tal exílio ocorreu justamente por causa de opções políticas: Reclus partidário da Comuna e propagandista anarquista?
PHILIPPE PELLETIER (1986)
Tradução: Silvio Antunha